Humanidades

Gostos, cultura e distinção na capital paulista
Seguindo o legado de Pierre Bourdieu, pesquisa aprofunda entendimento sobre as desigualdades na metrópole
Por Liana Coll - 05/04/2026


Delineamento de como os hábitos e gostos culturais se distribuem em São Paulo contou com a aplicação de questionários, entrevistas e grupos de discussão


Na cidade de São Paulo, quase um quarto da população caracteriza-se por desconhecer, não praticar e tampouco ter interesse em um determinado conjunto de práticas culturais. Com baixo acúmulo de diferentes formas de capital, em especial cultural e econômico, esse grupo opõe-se a uma elite que as acumula e que possui uma diversidade de práticas e gostos. Essa foi uma das constatações de uma pesquisa vinculada ao projeto temático Para Além da Distinção: gostos, práticas culturais e classe em São Paulo, cujo pesquisador responsável é o sociólogo e professor da Unicamp Renato Ortiz. O projeto reuniu pesquisadores de universidades brasileiras e estrangeiras e buscou descortinar as formas pelas quais frações de classe se diferenciam na capital paulista, ressaltando a cultura como um elemento de reforço das desigualdades.

A pesquisa partiu das análises do sociólogo francês Pierre Bourdieu (1930-2002) sobre a distinção, ou seja, sobre formas como classificações e hierarquizações sociais se dão. Elas foram utilizadas como hipóteses aplicadas em um estudo sobre a capital paulista. Uma das principais contribuições de Bourdieu, ao estudar a França, foi a afirmação de que o gosto não é inato, mas uma construção social que reforça as hierarquias entre classes sociais. Ao enfatizar a cultura — incluindo nela aspectos como escolaridade, fluência em idiomas e acesso a viagens internacionais, entre outros — como um elemento de diferenciação, o sociólogo ressaltou que até mesmo os gostos funcionam como marcadores de classe, algo que os pesquisadores buscaram verificar na metrópole.

“A proposta de Bourdieu tem algumas vantagens. A primeira é não reduzir a questão das classes sociais à dimensão econômica ou à dimensão política. As relações de poder não estão somente no nível econômico e político, mas também nas escolhas que, aparentemente, são exclusivamente pessoais”, avalia Renato Ortiz.

O professor ministrou uma conferência no seminário final do projeto, que ocorreu na Unicamp em novembro de 2025. Na ocasião, pesquisadores compartilharam análises sobre os dados obtidos na pesquisa, iniciada em 2019. “É a primeira pesquisa feita com essa amplitude no Brasil. Esse é um primeiro ponto da sua originalidade. Ela traz uma boa contribuição para o estudo das classes sociais no país, com dados empíricos que enriquecem bastante o debate”, diz Ortiz, que foi um dos responsáveis por trazer o pensamento de Bourdieu ao Brasil.

Elite entre rap e funk

Em sua fase quantitativa, os pesquisadores aplicaram um questionário a 2.004 moradores da cidade, obtendo uma amostra representativa de sua população adulta. Os resultados revelam novas faces da já conhecida desigualdade no município. Em relação à elite, a pesquisa aponta que cerca de 10% dos adultos compartilham gostos e práticas altamente exclusivas. “Essas pessoas estão em posições superiores e acumulam todas as formas de poder que existem. Elas têm maior escolaridade, maior nível de consumo, maior renda, possuem mais propriedades etc.”, sintetiza Michel Nicolau Netto, professor de Sociologia na Unicamp e um dos pesquisadores principais do projeto.

Coordenador do Grupo de Estudos em Bourdieu (Gebu), o docente ressalta também que é típico do gosto dessa elite não apenas a adesão a uma cultura altamente legitimada e exclusiva, com preferência, por exemplo, por filmes premiados e viagens para lugares incomuns, mas também por elementos da cultura popular periférica, como o rap e o funk. Por outro lado, há um desprezo à cultura popular comercial, com ojeriza a nomes da indústria cultural, como os cantores sertanejos Gusttavo Lima e Ana Castela, e a filmes comerciais, como os da saga Vingadores. Esse comportamento mostra que se trata de um gosto de altíssima seletividade, avalia Netto. “De certa maneira, [essa fração] mistura gostos, mas não indiscriminadamente, porque nenhum outro lugar no espaço social tem tanta rejeição à cultura comercial como este. Na verdade, eles têm quase um nojo de classe.”

Portanto, o gosto pelo funk e pelo rap, que também ocorre entre jovens de classes populares, não significa que exista um encontro entre as classes. Nos estratos superiores, gostar do gênero é um comportamento mais marcante do que frequentar seus eventos. A pesquisa constatou que o apreço pelo funk é maior do que o hábito de ir a bailes funk, por exemplo, denotando que um mesmo gosto pode ser praticado de maneiras diferentes por classes distintas.

Mas por que gêneros musicais que há alguns anos eram rejeitados nos estratos superiores hoje são apreciados? Para Edison Bertoncello, professor da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador do projeto, há uma mudança nas ofertas culturais ao longo do tempo e uma valorização da diversidade.

“O valor da diversidade hoje é muito maior do que era no passado. A diversidade é um capital, conta como um valor simbólico”, afirma. Para dar um exemplo, o sociólogo lembra que escolas de elite em São Paulo, ao mesmo tempo em que incluem no currículo uma educação bilíngue, incorporam também elementos da cultura popular, como a capoeira. Bertoncello lembra ainda da importância da inclusão das classes populares nas universidades públicas. “As classes populares, chegando às universidades, trazem o gosto periférico para dentro de instituições que são o berço da cultura dita legítima”, analisa.

Um homem de cabelos escuros e grisalhos está falando e gesticulando com as duas mãos abertas à frente do corpo. Ele usa óculos de armação transparente, uma camisa de botões marrom e um relógio preto no pulso esquerdo. O fundo mostra uma parede de tijolos e algumas plantas de forma desfocada.
Michel Nicolau Netto, coordenador do Grupo de Estudos em Bourdieu: especialistas apontam que a diversidade hoje opera como capital de valor simbólico

Separados pela religião

Uma das principais hipóteses de Bourdieu era a de que haveria uma homologia entre o espaço social (ou seja, das classes sociais) e o espaço simbólico (dos estilos de vida). “O argumento de Bourdieu é que, quando as pessoas são socializadas em uma mesma classe, elas têm todas as chances de terem estilos de vida similares. É isso que ele chamou de homologia”, explica Netto.

Os pesquisadores testaram a hipótese no estudo em São Paulo e afirmam que de fato foi encontrada uma homologia. Entretanto, o docente tece ponderações sobre ela. “Muitas vezes, as pessoas que leem Bourdieu, especialmente os que leem os ‘bourdieusianos’ sem ler Bourdieu, acham que essa homologia tem que ser completa. Ou seja, que todos os gostos de uma pessoa de determinada classe devem ser iguais aos de outra pessoa da mesma classe. E não funciona assim”, argumenta. “O importante é entender o alcance dessa homologia, maior em certas práticas, como nas mais legítimas, e menor em outras, como nas mais comerciais.”

Dessa forma, há espaço para gostos e comportamentos dissonantes, como a pesquisa captou nas frações de classe populares. “Existe uma cisão, quase uma fratura, entre pessoas que são igualmente pobres, que são igualmente pouco escolarizadas, que igualmente vivem em áreas vulneráveis, em regiões menos valorizadas da cidade, e que têm tomadas de posição culturais, simbólicas, morais e políticas opostas”, resume Miqueli Michetti, professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e pesquisadora do projeto.

Idade e religiosidade são os principais motivos desta cisão. Enquanto pessoas mais velhas e religiosas tendem a rejeitar a cultura popular periférica, os mais jovens e não religiosos são mais propensos a adotá-la. Para a professora Maria Celeste Mira, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), o peso da religião é um achado importante da pesquisa. “Há um conjunto de práticas que são rechaçadas por conta da religião, enquanto outro conjunto se caracteriza exatamente pela adesão a práticas religiosas”, diz.

Para um grupo relevante de pessoas, a literatura, por exemplo, se resume à leitura da Bíblia, e certos gêneros musicais, como o funk, são rejeitados por conta dos valores religiosos. Segundo os pesquisadores do projeto, exemplos como esses comprovam que, sozinha, a dimensão econômica não é capaz de captar dinâmicas e relações de classe, como afirmava Bourdieu. Ao mesmo tempo, demonstram que seus achados no contexto francês não se aplicam totalmente ao Brasil de hoje, onde a religião tem uma força maior.

O mesmo pode-se notar em relação à raça. Na pesquisa sobre São Paulo, sua importância foi percebida, com pessoas pretas aderindo mais às práticas periféricas do que as brancas e pardas, ainda que pertencentes às mesmas classes sociais. “O interessante é que essas pessoas são contíguas, elas convivem. Esse achado estatístico nos dá pistas para outras frentes de pesquisa, para outros métodos mais qualitativos, inclusive para tentar entender a guerra que deve ocorrer nesse encontro, de pessoas que querem se construir como moralmente melhores, mobilizando, sobretudo, a religião cristã pentecostal, para construir esse valor de si, por oposição a esses outros pobres”, aponta Michetti.

Este infográfico sobre classes e hábitos em São Paulo é dividido em duas partes principais: Parte Superior (Mapa e Tipologia):Apresenta um mapa colorido de São Paulo dividido por categorias, do azul (espaços populares) ao vermelho (classe superior verticalizada). Ao lado, dados mostram que 63,5% da população vive em bairros populares, 28,3% em bairros de classe média e 8,1% em distritos de classe superior. Parte Inferior (Tabela de Hábitos):Compara os gostos de diferentes classes sociais em quatro categorias: Ler livros: 77,5% nas classes altas contra 50% nas baixas. Amar funk: 12% nas classes altas contra 8% nas baixas. Gostar de rap: 4,2% nas classes altas contra 2,6% nas baixas. Visitar museus: 87,3% nas classes altas contra 54,6% nas baixas. A imagem usa ícones simples, como uma pessoa lendo sobre pilhas de livros e um dançarino de break, para ilustrar cada hábito.

Encontro de gerações

O projeto temático reuniu pesquisadores de diversas gerações e contribuiu para a formação de novos investigadores. Os dados obtidos com a pesquisa possibilitam a investigação em diversas frentes de estudo. O cientista social Gustavo Vieira, por exemplo, realizou o mestrado na Unicamp no âmbito da iniciativa. Sua dissertação, orientada pelo professor Nicolau Netto, focou nos estilos de vida e posicionamentos políticos das classes médias em São Paulo que possuem mais capital cultural do que econômico. A construção da identidade dessa fração, da qual fazem parte jornalistas, cientistas e artistas, constatou Vieira, está ligada ao fato de serem de um espectro político alinhado à esquerda. São pessoas preocupadas com sua formação cultural e críticas ao discurso da meritocracia.

Agora, no doutorado, o pesquisador busca entender como os bens simbólicos demarcam a identidade. Para responder à pergunta, Vieira voltou-se para a música. “Eu sabia que tinha dois objetos que funcionam muito bem para demarcar a identidade no Brasil, que são a música sertaneja e o funk. Então tomo esses dois objetos para perguntar por que a música sertaneja e o funk demarcam a identidade tão fortemente no Brasil.”

Para o sociólogo, realizar suas pesquisas no âmbito do projeto temático possibilita um aprendizado paralelo à sua formação. “Foi um privilégio ter me inserido nessa rede de pesquisadores que são referências na sociologia da cultura e na sociologia das classes sociais no Brasil”, relata.

PADRÕES E DIFERENÇAS

A pesquisa, cujo título faz alusão à obra A Distinção: crítica social do julgamento, publicada em 1979 por Pierre Bourdieu, utilizou métodos mistos, realizando grupos focais, questionários e entrevistas em profundidade. Antes de iniciar os grupos focais — técnica de pesquisa qualitativa em que pessoas são reunidas para discutir certos tópicos —, os pesquisadores precisaram desenhar uma tipologia espacial da cidade de São Paulo, a fim de entender como as desigualdades se relacionam com o espaço geográfico da metrópole. A análise dos distritos demonstrou que eles podem ser distribuídos em sete grupos de acordo com suas semelhanças em termos de características socioeconômicas.

O questionário foi aplicado a 2.004 participantes. Já as entrevistas em profundidade foram realizadas com 25 pessoas, escolhidas entre os participantes do questionário, representando cada gosto típico encontrado na análise.

O estudo começou com seis grupos focais, cada um representando uma fração de classe. Em cada grupo focal havia um moderador, que começava sempre com a pergunta: “O que vocês fazem no seu tempo livre?” Nas respostas, surgiram indicações como “eu gosto de ouvir música”, por exemplo, seguida de uma conversa entre os participantes, que concordavam, discordavam e explicavam seus motivos.

Tópicos sobre cinema, moda, gastronomia e literatura, entre outros, também foram inseridos nos grupos e, a partir de consensos e discordâncias entre os participantes, os pesquisadores criaram grupamentos de estilos de vida. Cinco pessoas de cada um deles foram escolhidas para entrevistas — três que representavam o estilo típico do grupo e duas que fugiam do padrão. As entrevistas possibilitaram aprofundar o entendimento sobre os padrões e as dissonâncias.

 

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